
Existem velejadores que conquistam títulos. Existem projetistas que desenvolvem barcos competitivos. E existem aqueles que conseguem reunir as duas coisas, deixando uma contribuição que permanece na história da vela.
Pedro Laffite Stier Neto foi um desses homens.
Velejador brasileiro, multicampeão em diferentes classes da vela rádio controlada e responsável pelo desenvolvimento de projetos da classe RG65, Pedro construiu uma trajetória marcada pela competição, pela busca de desempenho e pelo desejo de aperfeiçoar seus barcos.
Seu trabalho deu origem ao Stinger e, posteriormente, ao Skinny, projeto brasileiro que alcançou o topo da RG65 mundial.
Nesta edição especial do Radar Semanal, vamos conhecer a trajetória de Pedro, compreender como sua experiência nas raias contribuiu para o desenvolvimento de seus projetos e recordar o legado de um dos nomes importantes da história brasileira da RG65.
Pedro Laffite Stier Neto nasceu em 11 de maio de 1965, em Curitiba, no Paraná.
Ao longo de sua trajetória esportiva, destacou-se em diferentes classes da vela rádio controlada, acumulando títulos brasileiros, sul-americanos e mundiais.
Sua carreira passou pelas classes Marblehead, 1M ULY, RG65 e IOM, em uma época na qual a experiência dos velejadores e a capacidade de desenvolver soluções próprias tinham grande importância na evolução dos barcos.
Na classe Marblehead, Pedro conquistou o Campeonato Brasileiro em sete ocasiões, entre 1991 e 1998, com exceção de 1993.
Na classe 1M ULY, obteve quatro títulos sul-americanos e sete brasileiros.Também conquistou o Campeonato Brasileiro de IOM e foi vice-campeão da Primeira Copa Sul-Americana da classe.
Mas foi na RG65 que sua trajetória alcançou uma dimensão particularmente significativa.
De acordo com o levantamento histórico reunido para esta reportagem, Pedro conquistou:
Esses resultados mostram a amplitude de sua experiência competitiva antes e durante o desenvolvimento de seus próprios projetos. O histórico esportivo publicado pelo velejador e construtor Marlon Prestes também registra essas conquistas nacionais, continentais e mundiais. Vela Rádio Controlada RG65
Pedro não era apenas um projetista que observava os barcos de fora. Ele conhecia as exigências da competição, as dificuldades de regulagem e a importância de extrair o máximo desempenho de um veleiro.
Essa experiência seria fundamental para o nascimento de seus projetos.
O interesse de Pedro pela vela rádio controlada surgiu em 1985, quando tinha 20 anos.
Em entrevista concedida à comunidade chilena de vela rádio controlada, ele contou que assistiu a regatas da classe Marblehead em uma lagoa de Curitiba. O contato com aqueles veleiros despertou imediatamente seu interesse.
Naquele mesmo ano, começou a velejar.
A partir daí, a competição passou a fazer parte de sua vida, quando em 1987 participou do primeiro campeonato oficial o Brasileirode M.
A Marblehead, conhecida pelo elevado potencial de desempenho e pelas possibilidades de desenvolvimento dos barcos, proporcionou a Pedro uma base técnica importante.
Foi nesse ambiente que ele começou a acumular experiência e a compreender a relação entre projeto, construção, regulagem e desempenho.
Posteriormente, sua trajetória se estendeu à 1M ULY e à IOM, enquanto a RG65 se tornava o principal campo de expressão de seu trabalho como velejador e projetista.
A experiência acumulada nas diferentes classes seria decisiva para a etapa seguinte: deixar de apenas competir com os barcos disponíveis e começar a desenvolver seus próprios projetos.
A entrada de Pedro na RG65 ocorreu em 2002, durante o Campeonato Argentino da classe.
Na ocasião, competiu com um barco emprestado e terminou em terceiro lugar.
Depois, continuou participando de regatas com barcos construídos por seu parente Paulo Stier.
Com o passar do tempo, porém, surgiu uma inquietação.
Pedro acreditava que a classe precisava avançar, incorporando projetos mais modernos e eficientes.
A experiência adquirida nas competições lhe permitia identificar aspectos que poderiam ser aperfeiçoados. Em vez de se limitar às soluções existentes, decidiu experimentar suas próprias ideias.
Foi assim que começou a desenvolver os barcos que marcariam sua contribuição para a RG65.
Segundo o registro histórico de Marlon Prestes, Pedro iniciou seus projetos próprios em torno de 2009, apresentando o Stinger em 2010. O modelo teve versões iniciais em madeira de balsa e, posteriormente, construções em fibra de vidro, evoluindo para o Stinger AS antes do desenvolvimento do Skinny. Vela Rádio Controlada RG65
Essa sequência é importante para compreender a história.
O Skinny não apareceu isoladamente. Foi o resultado de uma trajetória de experimentação, competição e aperfeiçoamento.
O Stinger foi o primeiro grande projeto de Pedro a alcançar reconhecimento mundial.
Em 2010, durante o primeiro Campeonato Mundial da classe RG65, o barco chamou a atenção da comunidade internacional.
O projeto foi apresentado em versões de fibra de vidro com epóxi e fibra de carbono, demonstrando a preocupação com materiais e construção voltados ao desempenho competitivo. IOM, RG 65 & Footy
E o resultado foi extraordinário.
No primeiro Campeonato Mundial da classe, realizado em 2010, Pedro terminou na primeira colocação.
O pódio foi inteiramente formado por velejadores sul-americanos:
Pedro Stier — Brasil
Diego Louyer — Argentina
Luis Gomes — Brasil
A classificação final publicada na época confirma a vitória brasileira. IOM, RG 65 & Footy
A conquista demonstrou que o trabalho de Pedro não estava restrito à competitividade nacional ou sul-americana.
Seu projeto havia chegado ao topo da classe em nível mundial.
Mais do que um título pessoal, o resultado representou uma conquista para a vela rádio controlada brasileira e mostrou a capacidade de desenvolvimento existente no país.
O Stinger também abriu caminho para novas experiências.
Como acontece com projetos voltados à competição, a busca por desempenho não termina com uma vitória. Sempre existe algo a observar, testar ou aperfeiçoar.
Pedro continuou trabalhando.
E desse processo surgiria um novo barco.

A passagem do Stinger para o Skinny representa um dos capítulos mais importantes da trajetória de Pedro como projetista.
De acordo com o relato histórico de Marlon Prestes, o desenvolvimento passou por diferentes etapas: os primeiros exemplares em madeira de balsa, versões em fibra de vidro e modificações que deram origem ao Stinger AS.
Depois de novas alterações e de uma busca contínua por desempenho, Pedro chegou ao projeto Skinny. Vela Rádio Controlada RG65
O processo demonstra uma característica fundamental de seu trabalho: o projeto era aperfeiçoado a partir da experiência prática e da busca por melhores resultados nas regatas.
Pedro gostava de competir, mas também se dedicava ao desenvolvimento dos barcos, à montagem dos equipamentos e à preparação dos aparelhamentos.
Na entrevista concedida em 2014, explicou que os cascos eram laminados por Denis Astbury, enquanto ele próprio havia produzido o plug, ou molde positivo, utilizado na fabricação.
Essa colaboração entre projeto, construção e experiência competitiva fazia parte do processo.
O histórico técnico do Skinny menciona a utilização de componentes de qualidade, incluindo:
Esses elementos ajudam a compreender a proposta do projeto.
Não se tratava apenas de construir um casco dentro das dimensões da RG65. O objetivo era desenvolver um conjunto competitivo, no qual projeto, materiais, equipamentos e regulagem trabalhassem em harmonia.
O Skinny representava a continuidade dessa busca.
Se o Stinger marcou a primeira grande conquista internacional de Pedro, o Skinny consolidou sua trajetória como projetista de barcos vencedores.
Em 2014, Pedro conquistou o segundo Campeonato Mundial de RG65 de sua carreira, realizado no Rio de Janeiro, utilizando seu novo projeto.
A conquista foi mencionada pelo próprio Pedro na entrevista concedida naquele ano e também aparece nos registros históricos de sua carreira. Vela Rádio Controlada RG65
O resultado confirmou que o sucesso de 2010 não havia sido um episódio isolado.
Pedro voltava ao topo mundial, agora com outro projeto de sua autoria.
2010 — Stinger: o projeto que levou Pedro ao título do primeiro Campeonato Mundial RG65.
2014 — Skinny: a evolução de seu trabalho, novamente coroada com um título mundial.
Essa sequência resume uma parte essencial de sua história.
Pedro não apenas conquistou campeonatos: desenvolveu projetos que o acompanharam nessas conquistas.
Seu conhecimento como velejador alimentava seu trabalho como projetista, enquanto a experiência de construção e preparação contribuía para sua atuação nas regatas.
O resultado foi uma trajetória em que a competição e o desenvolvimento técnico caminharam lado a lado.
O trabalho de Pedro ultrapassou as fronteiras brasileiras.
Na entrevista de 2014, ele relatou ter vendido seus barcos para a Argentina, o Chile e diversos países europeus, incluindo Portugal, Itália, França, Espanha e Inglaterra, além dos Estados Unidos.
Naquele ano, informou ter vendido 28 barcos até o momento da entrevista, com prazo médio de entrega de 70 dias.
Esses números são um registro daquele período, mas demonstram a dimensão que sua atividade havia alcançado.
O projeto brasileiro despertava interesse de velejadores de diferentes países.
O catálogo internacional All Radio Sailboats registra Pedro Stier como projetista de dois modelos da classe RG65: Stinger e Skinny. AllRadioSailboats
Esse reconhecimento é significativo porque situa seu trabalho dentro da história internacional de projetos da classe.
O Skinny não ficou restrito à memória de seus primeiros proprietários ou às competições brasileiras.
Seu nome permanece associado ao desenvolvimento de barcos RG65.
Talvez uma das partes mais interessantes da entrevista de Pedro não esteja relacionada aos títulos ou aos barcos, mas à maneira como ele enxergava a vela rádio controlada.
Questionado sobre o que recomendaria aos praticantes da modalidade, respondeu que o mais importante era velejar, acumular experiência, conhecer as características do próprio barco e aprender a regulá-lo rapidamente.
Para ele, ter o projeto mais recente não era necessariamente o fator decisivo.
O domínio do barco e a experiência adquirida na água eram muito mais relevantes.
Pedro também defendia que os velejadores experientes compartilhassem seus conhecimentos com os demais.
Em sua opinião, esconder informações ou manter os barcos longe dos olhos dos outros competidores não contribuía para o desenvolvimento da frota.
Ele acreditava que a troca de experiências elevaria o nível técnico de todos e tornaria as competições mais interessantes.
Pedro relatou que, em Gaspar, os velejadores treinavam em grupo, mesmo quando havia apenas dois barcos disponíveis.
Quando surgiam dúvidas sobre as regras durante as disputas, interrompiam as regatas para esclarecer a questão antes de continuar.
Essa atitude revela uma visão de desenvolvimento coletivo.
Para ele, a vela rádio controlada não deveria ser apenas uma disputa por posições. Também deveria ser um ambiente de aprendizado, convivência e aperfeiçoamento.
Essa filosofia ajuda a compreender por que sua contribuição ultrapassou os resultados esportivos.
Pedro desenvolvia barcos, competia com eles, compartilhava experiências e ajudava a construir uma comunidade.
Pedro Laffite Stier Neto faleceu em 11 de agosto de 2016, aos 51 anos.
Sua trajetória foi interrompida prematuramente, mas o trabalho que desenvolveu deixou registros importantes para a história da vela rádio controlada brasileira.
Seus títulos continuam documentados.
O Stinger permanece associado à conquista do primeiro Mundial RG65.
O Skinny registra a evolução de seu trabalho como projetista e a conquista de outro título mundial.
E sua filosofia sobre treinamento, conhecimento compartilhado e convivência continua oferecendo uma reflexão importante para os velejadores.
A história de Pedro mostra que o desenvolvimento de um barco competitivo não acontece de uma hora para outra.
Ele nasce da observação, da experiência, dos testes, das mudanças e da disposição de continuar procurando soluções melhores.
O projetista precisa compreender o barco.
O velejador precisa compreender o vento.
E ambos precisam aprender com os resultados.
Pedro reuniu essas experiências em uma trajetória que atravessou diferentes classes e alcançou reconhecimento internacional.
Hoje, quando falamos de projetos brasileiros que conquistaram títulos mundiais na classe RG65, o nome de Pedro Stier ocupa um lugar importante.
Sua história também recorda a capacidade de desenvolvimento existente entre os velejadores brasileiros, que não se limitaram a competir com projetos estrangeiros, mas também criaram barcos capazes de alcançar os melhores resultados.
O Stinger e o Skinny são parte dessa história.
E a memória de seu criador merece continuar sendo transmitida às novas gerações da classe.
Há barcos que nascem para participar de regatas.
Outros se tornam conhecidos por suas vitórias.
E existem projetos que passam a representar a trajetória de quem os criou.
O Skinny reúne essas três dimensões.
É um projeto brasileiro desenvolvido por um velejador multicampeão, fruto de uma busca contínua por desempenho e associado a uma conquista mundial.
Mas, acima de tudo, é parte da história de Pedro Stier: um homem que transformou sua experiência nas raias em conhecimento, seu conhecimento em projetos e seus projetos em barcos capazes de conquistar o mundo.
Pedro Stier nos deixou em 2016, mas sua contribuição permanece registrada na história da RG65.
O Stinger abriu caminho.
O Skinny levou adiante essa trajetória.
E ambos continuam representando uma contribuição brasileira para a vela rádio controlada internacional.
Acompanhar. Aprender. Compartilhar. Preservar a história da classe.
Esta edição é uma homenagem a Pedro Laffite Stier Neto, velejador, multicampeão e projetista brasileiro.
Que sua trajetória continue inspirando aqueles que constroem barcos, desenvolvem projetos, disputam regatas e ajudam a manter viva a paixão pela vela rádio controlada.
SKINNY — O PROJETO BRASILEIRO QUE CONQUISTOU O MUNDO.
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